setembro 2010
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Porque não há conversão com as pregações de hoje?

 

    Quando o semeador saiu a semear, ouve grandes esperanças de que a sementeira produziria frutos.

-Porque se as primeiras sementes semeadas foram comidas pelos pássaros, pisadas pelos homens, secadas pelo terreno pedregoso, e sufocados pelos espinhos, ainda sobrava as que caíram em solo fértil e bom.

-Seria a culpa total desta falta de frutos, dos campos que não eram próprios para o plantio?

-Ao certo que não. Pois se tanto semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto?

-Não há um homem que em uma pregação entre em si e mude de vida, nem um moço que se arrependa, nem um velho que se desengane. Porque isso?

-Assim como Deus não é hoje menos Onipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que era antes.

-Pois se a Palavra de Deus é tão poderosa, se a Palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, -porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus?

-Para uma alma se converter através de uma pregação tem de olhar para três itens:

 

A – O pregador com a doutrina, persuadindo.

B – O ouvinte com o entendimento, percebendo.

C – Deus com o Espírito Santo, iluminando.

 

-Para um homem se ver a si mesmo é preciso de três coisas:

-Olhos, espelho e luz.

-Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos.

-Se tem espelho e olhos e é de noite não se pode ver por falta de luz.

-Logo se vê a necessidade de luz espelho e olhos.

-Quando um homem entra dentro de si e vê-se a si mesmo, ele se converte.

-O Pregador trabalha como o espelho, que é a doutrina.

-Deus trabalha com a luz, que é a Graça.

-O homem trabalha com os olhos, que é o conhecimento.

-Pregadores, porque a palavra de Deus não produz frutos?

-Por culpa dos Pregadores, culpa nossa.

-Porque então o Pregador com tantas qualidades, e em suas pregações tantas leis, e ser culpado da falta de frutos?

-No Pregador podem-se considerar cinco circunstâncias:

-A pessoa, a ciência, a matéria, o estilo e a voz.

-A pessoa que é, a ciência que tem, a matéria que ensina, o estilo que segue e a voz com que fala.

-A definição do Pregador é a vida e o exemplo.

-Por isso Jesus no Evangelho comparou o Pregador ao que semeia.

-Um é o semeador e outro o que semeia.

-Uma coisa é o soldado e outra é o que luta.

-Uma coisa é o governador e outra é o que governa.

-Uma coisa é o Pregador e outra é o que prega.

-O Pregador e o semeador é nome; o que semeia e o que prega é ação.

-E as ações é que dão o ser ao Pregador.

-Ter o nome de Pregador ou ser pregador de nome, não importa nada;

-As ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo.

-O melhor conceito que o Pregador leva aos seus ouvintes é seu modo de vida.

-Antigamente convertia-se o mundo, hoje porque não converte ninguém?

 

 

 

 

 

 

-Porque hoje se prega palavras e pensamentos, antigamente se pregava palavras e obras.

-Palavras sem obras são tiros sem bala; fazem barulho, mas não ferem.

-A funda de Davi derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo e sim com a pedra.

 

-Cristo comparou o Pregador ao semeador. O pregar que é falar, faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão.

-Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração são necessário obras.

-Jesus diz que a palavra frutificou cem por um. Que quer dizer isso?

-Quer dizer, que de uma palavra nasceram-se cem palavras? Não.

-Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras.

-Pois palavras que se transformam em obras vejam se são somente palavras.

-Porque João Batista convertia tantos pecadores?

-Porque assim como suas palavras pregava aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos.

-As palavras de João Batista pregavam penitência; homens fazei penitência; e o exemplo clamava, eis aqui está o homem que é retrato da penitência e da aspereza.

-As palavras de João pregavam o jejum e repreendia a gula, e o exemplo clamava; eis aqui está o homem que se sustenta de mel e gafanhotos.

-As palavras de João pregavam composição e modéstia e condenavam a soberba e a vaidade do corpo; e o exemplo clamava; eis aqui está o homem vestido de pele de camelo.

-As palavras de João pregavam desapegos às coisas do mundo e o exemplo clamava; eis aqui o homem que deixou as cortes e as cidades e vive no deserto em uma cova.

-Se os ouvintes ouvem uma coisa e vê outra, como hão de se converter?

-Se uma coisa é o semeador e outra o que semeia, como se há de obter fruto?

 

Padre Antônio Vieira

“Sermões”

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